Por que as feiras de retro games estão bombando no Brasil
Quem entra hoje em uma feira de retro games no Brasil encontra um cenário que parece impossível: filas para jogar Street Fighter II em gabinetes originais de fliperama, famílias inteiras revivendo o Mega Drive, jovens descobrindo o Atari pela primeira vez e colecionadores garimpando cartuchos raros. O que era um nicho de saudosistas virou um dos segmentos mais vibrantes da cena de eventos do país. Edições que reuniam poucos milhares de visitantes hoje lotam pavilhões de mais de 10 mil metros quadrados, e novos encontros surgem a cada ano em diferentes regiões. Nesta reportagem, a gente mapeia esse fenômeno e explica por que os jogos antigos voltaram com tanta força.
Os números que comprovam o crescimento
O exemplo mais claro dessa curva ascendente é a RetroCon, realizada em São Paulo. A primeira edição, em 2023, recebeu cerca de 4.500 pessoas. No ano seguinte, em 2024, o público pulou para aproximadamente 9.000. Já em 2025, a feira reuniu mais de 15 mil visitantes ao longo de três dias, ocupando um espaço de mais de 10 mil metros quadrados no Transamerica Expo Center. Em três edições, o evento praticamente triplicou de tamanho e se consolidou como uma das maiores celebrações de jogos clássicos do Brasil.
A história se repete em outros cantos do país. O Rio Retrogames, maior evento do gênero no Rio de Janeiro, reuniu mais de 1.500 pessoas em 2025 e, diante da procura, decidiu ampliar a programação para dois dias em 2026. Os organizadores foram diretos ao explicar a expansão: ela reflete "o crescimento do interesse por jogos clássicos e pela preservação da história dos videogames".
Esse movimento não está concentrado em um único polo. Ele se espalha por todo o país, como mostra a variedade de encontros reunidos na categoria de eventos de retro games da nossa agenda.
Tradição e comunidade: a base do fenômeno
Por trás do crescimento recente há histórias longas de comunidade. A Canal 3 Expo, realizada em São Paulo, nasceu em 1999 a partir de uma comunidade de entusiastas e se tornou um dos encontros retrogamer mais tradicionais e respeitados do Brasil. A edição de 2026 marca 25 anos de história. Sua programação combina arenas de jogatina com mais de 150 consoles em freeplay, competições, shows de música de games, área indie com desenvolvedores nacionais e exposições temáticas. Em 2025, o evento entrou para a história ao sediar, pela primeira vez no Brasil, uma etapa oficial do Classic Tetris World Championship (CTWC).
No Sul, a RetroSC ilustra como esses eventos brotam de forma orgânica a partir da paixão coletiva. Tudo começou em 2016 com um simples grupo de WhatsApp de colecionadores catarinenses apaixonados pelo universo retrô. O grupo cresceu, hoje reúne centenas de membros de dezenas de cidades, e o encontro já passou da 16ª edição, realizado em Florianópolis. É a prova de que a comunidade é o verdadeiro motor desse mercado: gente que joga, compra, vende, troca e, principalmente, conversa sobre a história dos videogames.
Por que o retrô voltou a fazer sucesso
Vários fatores ajudam a explicar essa explosão de interesse. Os principais são:
- A geração que cresceu com esses jogos amadureceu. Quem teve um Master System, um Super Nintendo ou frequentou fliperamas nos anos 80 e 90 hoje tem poder de compra e tempo para reviver essas memórias. O consumo retrô aciona memórias afetivas socialmente compartilhadas, que conectam a infância e a juventude de toda uma geração.
- A nostalgia também contagia os mais jovens. Não é só saudosismo. O retrogaming passou a atrair também jogadores que nasceram na era digital moderna e demonstram curiosidade pelos primeiros videogames e suas experiências de jogo. Nas feiras, é comum ver pai e filho jogando o mesmo título lado a lado.
- Os mini-consoles abriram a porta. Lançamentos como o NES Classic Mini, o SNES Classic Mini e o Mega Drive Mini popularizaram o acesso aos clássicos e despertaram o desejo por hardware original. Eles funcionam como uma ponte: muita gente conhece os jogos pela versão miniatura e depois quer experimentar o console de verdade.
- O colecionismo virou paixão (e investimento). Consoles e cartuchos antigos se tornaram itens de desejo, e exemplares raros ganharam enorme valorização no mercado internacional. Mais do que dinheiro, porém, colecionar é uma forma de manter viva uma parte da história dos games.
Fliperamas, preservação e a memória dos games
Outro ingrediente central dessas feiras é o resgate da cultura dos fliperamas. Gabinetes originais de empresas como Capcom e SNK, além de pinballs, costumam ficar liberados para jogatina gratuita, recriando a experiência de uma sala de arcade dos anos 80 e 90. É uma atração que nenhum console doméstico reproduz por completo: o gabinete, o controle, o som alto e a competição cara a cara fazem parte da magia.
Esse impulso conversa com um movimento mais amplo de preservação. O Museu do Videogame Itinerante, nascido em Campo Grande (MS), foi reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) como o primeiro museu dedicado aos games no Cadastro Nacional de Museus. Seu acervo passa de 200 consoles e 6 mil jogos, incluindo peças históricas como o Magnavox Odyssey e o Telejogo Philco Ford. A mensagem por trás de iniciativas assim é clara: os jogos eletrônicos precisam ser reconhecidos como história, cultura e arte.
O retrô dentro de um calendário gamer cada vez maior
As feiras retrô fazem parte de um ecossistema de eventos em plena expansão no Brasil. Quem acompanha a cena costuma circular também por grandes encontros como a BGS e a CCXP, o que reforça como o público de games está cada vez mais ativo e disposto a participar presencialmente. Os eventos retrô, porém, têm uma identidade própria: são movidos por afeto, memória e senso de comunidade, e não apenas por lançamentos.
A tendência é de mais crescimento. Com edições se multiplicando, públicos batendo recordes e organizadores ampliando programações, tudo indica que as feiras de retro games vão ocupar um espaço cada vez maior na agenda nacional. Se você quer acompanhar de perto, vale ficar de olho nos próximos encontros listados entre os eventos nacionais e planejar a próxima viagem no tempo. Afinal, poucas experiências reúnem tantas gerações em torno de uma mesma paixão quanto um bom dia de jogatina clássica.